Araguari fotos

A observação do fenômeno é feita das voa-deiras, as pequenas lanchas rápidas de alumínio ou fibra com um periclitante motor de pro-pulsão. A primeira coisa que o piloto fala é que, se o motor pifar, a onda engole. Ótimo. O negócio é pular fora, não rolar com a lancha. Pode-se, claro, escolher ficar na margem do rio, sobre o barranco. O risco é quase nulo.
Mas não fiquei no barranco. Para o bem da reportagem, tomei uma voadeira e fui caçar a onda perfeita.
A pororoca corre numa velocidade entre 30 e 50 km/h. Minha voadeira levava três homens que contavam mais de 300 quilos. O piloto disse que o motor, de apenas 25 hp, não daria conta. Pediu que um de nós trocasse de barco. Mas já não havia mais tempo. Ficamos os três agarrados àquela máxima que Amyr Klink cunhou em 1982, na ocasião de sua travessia do Atlântico a remo: “O melhor barco é aquele que vira fácil, porque é mais fácil desvirar depois”. Então, tá.
Antes de a onda chegar, o nível de água do rio abaixa, tal qual a imprensa descreveu o tsu-nami da Ásia. E os grilos de dentro da selva passam a praticar um jogo de irritar a gente. Não sei seja berravam tão escandalosamente antes, ou se o silêncio ajudou a ressaltar o barulho. Prefiro pensar que a natureza enlouquece com o que vai acontecer. Na curva do rio, uma pequena camada de branco espalhou-se sobre o preto das águas. Era a onda. “Poroc-poroc”, como batizaram os índios, imitando o barulho que ela faz. Já estava a caminho.
“É agora,” grita Alex, o fotógrafo.
Se eu dissesse que o motor de nossa lancha pegou logo de cara, estaria mentindo. Apesar da imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo colada na tampa da engenhoca, ela precisou de duas chicotadas no arranque antes de fazer o que deveria fazer por instinto: fugir da onda a mais de 50 km/h.
Sabe aquela cena do filme Parque dos Dinossauros, quando os três heróis estão num jipe, fugindo de um tiranossauro? É exatamente essa a sensação. A trilha das voadeiras parece que irrita a pororoca, levando ordem geométrica ao que é apenas caos natural. Essa imagem é muito forte. A onda louca penteada pela trilha dos motores. Um animal enlouquecido. O monstro do Amaral Netto. Nem 1 milhão de dardos tranqüilizantes em seu dorso fariam a menor diferença.
O sol fez sua parte. Naquele dia a pororoca veio “seca”, como dizem os nativos. Veio abençoada pelo sol das 9 da manhã, que criava reflexos inexplicáveis na água. Dentro da pequena lancha, pensando nos milhões de metros cúbicos de água agitando-se não muito ao longe, tive um pequeno e poderoso lampejo: a natureza é uma força incontrolável. Na hora, pensei em todas as ignorâncias cometidas pela humanidade em nome do progresso, ou seja lá qual nome se dê a isso. Lembrei de mim mesmo, quando menino, acordando uma manhã com o barulho da serra elétrica que derrubava minha árvore preferida.
A pororoca durou no máximo dez minutos. Quem estava no barranco deve ter-se arrependido amargamente, porque viu apenas uma onda distante e alguns pontinhos – nossas voadeiras – batendo em retirada. A prova de que o tempo é relativo: foram dez minutos para quem estava no barranco. Para nós, algumas boas horas de adrenalina. O que me leva a pensar: a pororoca é turismo de aventura ou turismo “normal”? Digo que os dois. Uma paca pastando no pôr-do-sol do Amapá é algo que qualquer ser humano acha a coisa mais linda. O grito embolado de uma arara cruzando o rio também. O que está em volta da onda – no percurso que qualquer turista, aventureiro ou não, deve percorrer – é uma delícia. A fauna onipresente, a flora que é moldura de absoluto bom gosto, a cozinha local. O alvoroço que causa uma das pimentas locais já é uma pororoca dentro da outra.
Antes do encontro marcado com a onda, conversei longamente com os pilotos das lanchas que levam turistas à pororoca. O barulho do gerador de energia da pousada onde estávamos nem incomodava mais. A cerveja era gelada, o peixe frito era bom e eu entrevia o rosto confiável de Fátima Bernardes apresentando o Jornal Nacional a uma platéia atenta; enfim: a coisa ia de bem a melhor. Começaram a aparecer histórias. E mais histórias. A melhor é esta, que rabisquei eufórico em meu bloquinho. Lá vai: uma turista francesa veio testemunhar a pororoca. Na hora de ir embora, o motor de sua lancha pifou. Ela e o piloto ficaram à deriva por quatro horas. Sim, claro: a pororoca acontece de 12 em 12 horas. Se ocorreu às 8 da manhã, a próxima vem na outra maré alta, pela hora da novela das 8. Como estavam ali havia quatro horas, em mais oito os náufragos seriam arrastados pela corrente furiosa. Pânico. Finalmente, a francesa lembrou-se de seu celular na bolsa. Ligou para seus compatriotas e fez um pedido desesperado de ajuda. Os franceses ligaram para a embaixada brasileira em Paris. O Itamaraty e depois o governo do Amapá foram conectados. Um santo homem, cujo nome se perdeu, discou para um amigo que possuía um avião e que morava na região onde a francesa estava. O homem do avião descobriu que os bombeiros faziam uma manobra não muito longe dali. Depois de tantas chamadas internacionais e interurbanos, a pororoca já estava perto demais. Havia pouco tempo. O aviador escreveu uma mensagem para os bombeiros, explicando a emergência, e a colocou dentro de um garrafão de 20 litros de água mineral. Vazio, claro. Voou baixo e arremessou o recipiente sobre os salva-vidas. Os bombeiros pegaram o garrafão, leram a mensagem e partiram. Salvaram a francesa e o piloto a apenas algumas horas da onda que poderia ter levado a vida deles. Que história, não?

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