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O vinho que engravida

Você vai aspirar o aroma da páprica fresca ou as uvas do vinho da região de Somlò, cuja ingestão conta a lenda provoca gravidez instantânea nas mulheres em lua-de-mel. E talvez chegue a entender por que, entre todos os povos da região, os húngaros sejam aqueles que menos deixam o seu país, não o fizeram sequer nos tempos bicudos e não parecem ter a menor intenção de espalhar suas proparoxítonas mundo afora.
Budapeste, enfim, são duas grandes viagens separadas (ou unidas) pelo Danúbio.
O melhor lugar para vê-la por inteiro é o mirante da Citadella, no alto do Monte Géllert. Ali há uma estátua que, durante o período soviético, era adornada por soldados russos forjados de bronze. Pragmáticos, os húngaros retiraram os soldados e transformaram o monumento em mais um de seus símbolos da liberdade. Há outro mais prosaico: o brindar com cerveja. Seguindo uma antiga tradição, os magiares jamais batem suas canecas quando estão sob o jugo de algum povo invasor. Há treze anos, porém, os vidros retinem de novo em Budapeste quando se bebe cerveja. E como se bebe muito, e bom ter sempre uma moeda de 100 forints no bolso. Para emergências.

Bastião dos Pescadores monumento muito bem iluminado

Mas o que Pest tem de melhor (na opinião dos que habitam o outro lado do rio) é a vista para Buda: o Palácio Real, a fortaleza, a Igreja de São Matias, o Bastião dos Pescadores e outros monumentos muito bem iluminados todas as noites. É o eterno confronto de classes que nem János Kádar, cruel preposto do stalinismo, conseguiu resolver. Por menos que se admita, quem vive nas casas barrocas de Buda, em ruas coloridas como a Uri e a Fortuna, sente-se mais perto do céu. É fato indiscutível, diga-se, porque Buda fica acima de Pest. As vicias que foram percorridas por soberanos turcos, húngaros e austríacos no decorrer dos séculos, hoje são fechadas aos carros de passeio. Ali só entram táxis e ônibus de turismo, além, é claro, de devotos da imperatriz Sissi que, segundo se conta, gostava mais de Budapeste do que de Viena ou mais de um certo conde do que de seu imperador. Buda, solene e cênica, é programa para quem quer ir fundo na cultura magiar. Ali ficam dezenas de museus inclusive o do vinho e os mais esplêndidos monumentos. Paradoxalmente, porém, a nobre Buda tem ares mais bucólicos do que a cosmopolita Pest. Basta uma hora de caminhada perto das muralhas (especialmente na tranqüila Alameda Tóth Árpad), para você se sentir nos pampas húngaros ou nas margens do Lago Balaton, o maior da Europa, que é o mar interno do país.

Majestosa praça dos Heróis

Tem cassinos, tem feiras de rua, tem cafés explosivos como o Central, o Gerbeaud e o New York, onde intelectuais tramaram várias revoluções e muitas perseguições. Tem museus, bibliotecas (não deixe de ver o 4ª andar da Biblioteca Ervin Fõvárosi, que parece o cenário de um filme de Istvan Szábo), mercados e restaurantes que não param de servir a comida mais bem temperada e farta dessa parte da Europa. Tem, também, a majestosa Praça dos Heróis, que exalta Árpad e os outros seis chefes de tribo que vieram das fraldas dos Urais, na Rússia, e se instalaram de cara para o Danúbio, criando a nação magiar. São hunos os antepassados desse povo e seu mais celebrado herói nacional é Santo Estêvão, que antes de conquistar a auréola, consolidou o país no final do primeiro milênio.

Muita música nas veias

Foi no campo da música que os húngaros deixaram seu legado mais expressivo. Jospeh Haydn, Franz Liszt e Bela Bártok são apenas os mais conhecidos entre os compositores que se inspiraram nas águas do Danúbio. Péter Esterházi e Ferenc Moinar, autor do clássico Os Meninos da Rua Paulo são nomes de destaque numa literatura rica, cuja projeção internacional muitas vezes acabou prejudicada pelo hermetismo do idioma. No campo dos esportes, além de Puskas, o futebolista mais popular da Eu ropa do Leste, a Hungria produziu dezenas de campeões olímpicos em modalidades como esgrima, pólo aquático e remo. Os húngaros também são mestres na fotografia. Os célebres fotógrafos Brassai e Robert Capa, por exemplo, chamavam-se, na verdade, Gyula Halász e Endre Ernó Friedmann.

Magnífica Opera de Budapeste

Esqueçamos um pouco as pontes, contudo. O assunto era Pest e quando se fala dessa meia-cidade, é impossível não registrar a riqueza de sua arquitetura neoclássica e art nouveau, cujos melhores exemplares estão tinindo de renovados após a ocidentalização acompanhada de grandes investimentos do país. Em Pest ficam as ruas de comércio, cujo coração é a Váci utea, hoje um grande calçadão. Em Pest fica a magnífica Opera de Budapeste onde Franz Liszt e Bela Bártok, entre outros músicos húngaros aclamados para a posteridade, executaram muitos de seus grandiosos concertos. Pest, burguesa e operária, é mais mundana do que Buda.

Chega às imediações da Ponte das Correntes

Com o mesmo bonde você chega às imediações da Ponte das Correntes e, se tiver sorte e talento, pode obter uma foto que nem a que dá início a esta reportagem. É uma obra e tanto do arquiteto escocês Adam Clark, famosa por suas colunas e seus leões. Principal via de ligação de Buda e Pest, a ponte termina sob o morro em que ficam as atrações monárquicas. No final dela há um túnel que, na imaginação das crianças húngaras de várias gerações, seria uma espécie de garagem para a ponte se esconder durante os invernos inclementes.

Fazer uma caminhada e aprender Parlamento da Hungria

Para facilitar, uma das bucólicas linhas de bonde da cidade percorre a margem plana do Danúbio, levando o visitante pelo melhor visual possível entre as sete pontes que trespassam o caudaloso curso d ‘água. Com ele, o de número 2, você alcança, por exemplo, o Parlamento da Hungria que, independentemente da qualidade de seus deputados, é considerado o mais belo da Europa e lembra o da Inglaterra. Passeio obrigatório.

Rio Danúbio um dos maiores

E tem vantagens: a geografia caprichosa que faz dela uma espécie de Rio de Janeiro sem mar é a maior delas. E o que é uma Rio de Janeiro sem mar? Bom: é uma Rio de Janeiro com rio, no caso um imenso rio chamado Danúbio, muito maior e mais presente aqui do que em Viena. Ele não é azul como cantava Strauss (nem aqui, nem cm Viena), mas é a alma da cidade e referência dos viajantes. Você pode não entender nenhuma das placas de ma, mas basta ter um mapa e acompanhar as curvas do rio para localizar todas as atrações.

História da Hungria

História da Hungria.
Foram-se as conquistas sociais e os monumentos socialistas, hoje reunidos num parque que cobra ingresso para quem quiser revê-los. Mas ainda há muitos prédios com marcas de rajadas de tiro disparadas na revolução de 1956, quando milhares de húngaros lutaram para escapar do jugo soviético. Um bom observador, porém, perceberá que Budapeste já é uma cidade tão ocidental quanto Roma ou Madri: tem os mesmos hotéis chiques, as mesmas lojas de grife, as mesmas baladas techno e as mesmas aspirações burguesas de seus antepassados e de seus vizinhos europeus.

Bairro de Óbuda

As ruínas de Aquincum ainda são visíveis e representam apenas uma das intermináveis atrações de Budapeste. Elas ficam no bairro de Óbuda, que também era um município mais um da fusão que gerou a capital. Obuda, porém, não é mais uma cidade: os encantos das poucas ruelas que ainda resistem no bairro (e que você precisa conhecer) estão sombreados por dezenas de imensos conjuntos habitacionais do tipo caixa-de-sapato erguidos no tempo da ditadura do proletariado.