Tag-Archivo para » carnaval paraty «

Paraty quer seguir a trilha da intelectualização

Em um olhar mais atento, porém, fica nítido que Paraty sofisticou-se. O casario abriga pousadas cada dia mais requintadas, restaurantes e bares que sempre têm um músico enchendo a noite de bossas novas, antiquários e ateliês de artistas cujas obras vão, via de regra, enfeitar residências em outros continentes. Se, numa porta, os coloridos trabalhos em papel machê de Lúcio Cruz exaltam as festas e o folclore local, na outra, Pedro Malvão faz seus divinos, seus sapos e borboletas. Mais adiante, Aecio Sarti produz belíssimas figuras modiglianescas sobre lonas de caminhão e a mexicana Palricia Sada constrói seu trabalho muito suave e pessoal.
Dir-se-ia que, até pelo sucesso de sua badalada Feira Literária – a Flip, que ocorre todos os anos em agosto -, Paraty quer seguir a trilha da intelectualização. Mais que os loucos transviados de outrora, as autoridades do turismo local gostariam mesmo é de ver a cidade repleta de escritores, pintores e outros artistas, se possível consagrados. O que, aliás, não deixa de ser uma seqüência natural dos fatos observados no tempo do Valhacouto, apenas que, dessa vez, com mais regras e mais dinheiro.

Fotos da Principado de Paraty

A declaração da independência do Principado de Paraty foi apenas um dos episódios regados a álcool dessa comunidade hippie têmpora. Durou, segundo diz-se, longos quatros dias, com a adesão de todas as poucas autoridades locais e só não foi adiante porque a Capitania dos Portos da vizinha Angra dos Reis, estranhando o silêncio nas comunicações radiofônicas, enviou uma corveta para reintegrar o “principado” ao Brasil e mandou os “insurretos” para a cadeia por um par de dias.
O Valhacouto durou três anos. Nasceu em 1964 e terminou no dia 7 de setembro de 1967. Nessa patriótica data, a fanfarra de uma escola local passou logo cedo comemorando a Independência do Brasil bem em frente ao estabelecimento de Zé Kléber. Incomodado com o som que lhe agravava a ressaca, o poeta não teve dúvidas. Abriu as portas do bar, declarou boca-livre geral e, sorridente, viu estudantes e músicos liquidarem tudo o que havia no estoque.
Quando não havia mais nada para comer ou beber, Zé Kléber subiu no balcão e declarou definitivamente encerradas as atividades do Valhacouto.
Foi-se o bar, ficou a fama. No final dos anos 1960, diversas equipes de cinema despencaram na cidade para usá-la como cenário. Nem é preciso dizer

A breve história de sao paulo paraty

A breve história desse estabelecimento, de propriedade do poeta paratiense Zé Kleber, merece ser brevemente relatada porque, de certa forma, marca o fim do que Paraty poderia ter sido e o início de tudo o que veio a ser. Antes do Valhacouto, de sua gloriosa indecência e de sua lisérgica utopia, a vila que nasceu em 1667, no final da trilha dos índios guaianás, viveu a imensa prosperidade de funcionar como o porto do ouro extraído das Minas Gerais. É do tempo em que barcas, sumacas e batelões do Rio de Janeiro aportavam na localidade para transportar a riqueza rumo a Portugal, que data a maior parte de seu casario. Que, hoje sabe-se, foi planejadamente erguido seguindo normas maçonicas, 33 quarteirões seguindo a escala mística 1:33:33 — o grau máximo da maçonaria.
Mais tarde, para evitar o ataque de corsários, a Corte mandou criar o Caminho Novo da Piedade, que fazia o ouro transitar diretamente para o Rio, sem passar pela vila, que sofreu sua primeira decadência. Não definitiva, porém, uma vez que o caminho voltou a ser utilizado no ciclo do café, até 1870, quando a criação da estrada de ferro Rio-São Paulo enterrou de vez a prosperidade de Paraty.
É nessa época que se iniciam os cem anos de solidão da Macondo fluminense. Quem sabe com o testamento de um certo padre Veludo, homem de posses, que deixou imóveis para sete filhos, todos eles produzidos – segundo o documento -, “em um momento de fragilidade humana”.