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A fuga para Roma

A os 37 anos, atordoado pelas pressões sociais de escritor, ministro e, ainda por cima, amante de uma mulher casada por mais de dez anos, Johann Wolfgang von Goethe, o maior nome da literatura alemã de todos os tempos, decidiu pôr o pé na estrada a fim de espairecer. Em 1786, Goethe rumou secretamente para a Itália, que já era turística e nem sabia. O saldo dessa aventura, que se estendeu por dois anos, foi a transformação de seu diário de viagem num dos livros que melhor retratam o fascínio que a Itália exerce sobre turistas de todo o mundo: Viagem à Itália .

“O desejo de ver este país (…) transformou-se numa espécie de doença da qual apenas a visão disto tudo e minha presença aqui podiam curar-me”, escreveu Goethe. Como costuma acontecer com todo mundo que sonha em conhecer a Itália, Goethe estava especialmente ansioso por chegar a Roma, como mostram suas anotações de 1Q de novembro de 1786, quando ele finalmente teve a cidade eterna diante de seus olhos: “Atravessei voando, por assim dizer, as montanhas tiro-lesas. Verona. Vicenza, Pádua e Veneza conheci bem; Ferrara, Cento e Bolonha, apenas de passagem; de Florença, quase nada vi. O desejo de vir para Roma foi tão grande, crescendo tanto a cada minuto, que não pude me deter por mais tempo e passei apenas três horas em Florença. Agora estou aqui, calmo, tranqüilizado para toda a vida, ao que parece.

Sim, pois pode-se dizer que uma nova vida tem início quando se vê com os próprios olhos aquilo que, em parte, se conhece tão bem, por dentro e por fora. Todos os sonhos de minha juventude, vejo-os agora ganhar vida; as primeiras gravuras em cobre de que me lembro (meu pai pendurou vistas de Roma em uma ante-sala), eu agora as vejo de verdade, e tudo quanto eu conhecia há tempos, de pinturas e desenhos, gravuras em cobree madeira, em ges-so e cortiça, apresenta-se agora reunido diante de mim; aonde quer que eu vá, encontro velhos conhecidos num novo mundo; tudo é como eu imaginava, e tudo é novo. A mesma coisa posso dizer de minhas observações, de minhas idéias. Nenhum pensamento inteiramente novo me ocorreu, mas os velhos tornaram-se tão definidos, tão vivos, tão coerentes, que poderiam passar por novos”.